Até poucos anos atrás, a relação cotidiana entre professores e alunos durante os períodos letivos costumava ter prazo para acabar: quando tocava o sinal que encerrava
a última aula. Daí até o dia seguinte, desapareciam momentaneamente
da vida alheia. Nas férias, cada um seguia para o seu lado - e, exceto
nos casos em que eram moradores do mesmo bairro e poderiam se encontrar casualmente
na rua, uns só receberiam notícias dos outros quando retornassem
ao convívio na escola. Situação parecida regia o convívio
diário entre os próprios professores, que também se despediam
dos colegas na última reunião do semestre e, salvo as exceções
em que havia amizade consolidada ou parentesco, só os reencontrariam na
primeira reunião do semestre seguinte.
Um dia, alunos e professores
deixavam a escola. A partir de então,
transformavam-se em lembranças, que ficavam cada vez mais vagas com
o tempo. Anos depois, alguns retornavam para matar saudades e contavam um pouco
do que tinham feito da vida. Hora de festa, mas só por dez ou 15 minutos,
pois a próxima turma aguardava o início da aula. Em seguida,
os agora visitantes desapareciam novamente, voltando a se esconder por trás
dos pontos de interrogação que, em muitos casos, já os
acompanhavam quando estavam ali, mesmo tão perto, mas no fundo tão
longe. Onde vivem? Como se divertem? No que acreditam e o que mais desejam?
Como são as suas famílias? Em quem planejam votar nas próximas
eleições? O que pensam da escola e dos professores?
Nenhuma das
situações descritas acima parece caber em escolas
- de ensino fundamental, médio ou superior - do século 21. Menos
por conta do que ocorre dentro delas, e muito mais em virtude das transformações
provocadas por um braço imenso da "revolução digital",
que tem na internet seu maior ícone: as redes sociais. Não se
trata, evidentemente, de uma invenção recente, embora o nome
soe para muitos como algo contemporâneo. Elas existem desde que um primeiro
agrupamento de seres humanos decidiu manter contato regular, por motivos pessoais
ou profissionais, para troca de informações, experiências,
causos ou piadas. Praças, clubes, igrejas, bares e restaurantes sediavam
os encontros dessas redes - cujos membros dispunham, a distância, dos
correios (e, depois, do telefone) para mantê-las ativas.
Novas interações
Com a popularização da internet e dos novos recursos de telefonia
móvel, essas redes sociais encontraram um facilitador até então
inédito. Sua disseminação entre as novas gerações,
familiarizadas desde a infância com o uso de computadores e de telefones
celulares, estabeleceu um cenário radicalmente distinto para a interação
social. Mesmo a distância, é possível se manter conectado
a alguém. Em diversas circunstâncias, a própria distância
tende a aumentar o grau de conexão. No âmbito da escola, essas
transformações derrubaram simbolicamente paredes e muros. Não é mais
preciso que todos estejam juntos na sala de aula ou no espaço escolar
para que haja interação.
Mais do que isso: novas categorias de
trocas foram instauradas por essas redes. Já faz algum tempo que, para buscar respostas às perguntas do
segundo parágrafo desta reportagem, e para inúmeras outras, inclusive
algumas que você nem mesmo havia formulado, basta ligar um aparelho com
acesso à internet e saber como navegar por ela. "Seria interessante
que os educadores ficassem atentos a alguns dados", alerta a pesquisadora
Sonia Bertocchi, gestora da comunidade virtual Minha Terra. "Redes sociais,
como o Orkut e o Facebook, já são mais utilizadas do que e-mail.
Até 2009, o Orkut foi a rede social dominante no Brasil, alcançando
21 milhões de visitantes únicos em setembro de 2008. Naquele
mês, cada um deles passou em média 496 minutos no site e fez 28
visitas."
Esse cenário, no entanto, se altera com velocidade impressionante.
Em abril deste ano, um estudo da StatCounter - que monitora o uso da internet
- colocou o Orkut em quinto lugar entre usuários brasileiros, com apenas
1,67% do total do tráfego. Na primeira posição, veio o
Twitter, com 55,84%, seguido pelo Facebook, com 20,14%, e pelo You Tube, com
16,27%. O ranking inclui ainda sites menos conhecidos, como o StumbleUpon,
com 3,19%, o Delicious, com 0,69%, e o Digg, com 0,34%. As demais redes sociais
respondiam por 2,79% do tráfego brasileiro. Nesse mesmo estudo, os números
globais traziam o Facebook na liderança, com 55,13%, seguido por StumbleUpon,
com 21,83%, e pelo Twitter, com 7,15%.
Sonia considera também que educadores deveriam levar em consideração "a
demografia das redes sociais no que se refere ao uso pelos jovens". Pesquisa
apresentada nos EUA em abril deste ano pelo site Flowtown (1) aponta para a
predominância do público adolescente em algumas redes, como o
My Space, em que a faixa de 0 a 17 anos representa o maior contingente. No
Facebook, quase um terço dos usuários tem até 24 anos.
Pouco menos de metade dos que frequentam o Reddit e o StumbleUpon
não completaram 35 anos. Em quase todas as redes pesquisadas, o público
com menos de 45 anosé amplamente majoritário.
"Os professores não podem, ou não deveriam, ignorar esses
dados nem essas ferramentas", observa Sonia. "Seria interessante
que olhassem para as redes sociais como ambientes virtuais que oferecem muitas
formas de interação com diversas pessoas, que estimulam o contato
com a diversidade sociocultural, criam condições para se fazer
uma rede de amigos e para se manter informado pelo assunto de seu interesse." Um
passo seguinte, recomenda, "seria os professores se apropriarem dos recursos
oferecidos pelas redes sociais, visualizar o que trazem de possibilidades para
a aprendizagem de seus alunos, e incorporá-los ao currículo de
maneira inovadora".
A pesquisadora Michele Schmitz, do Terraforum, acredita
que nos últimos
anos houve "avanços quanto à utilização de
redes sociais por professores e gestores educacionais", mas que se trata
de algo "ainda muito ínfimo". "Vejo que muitos educadores
ainda não utilizam em larga escala as redes sociais e outras possibilidades
da web 2.0 devido a vários fatores, mas o principal é a falta
de recursos de infraestrutura tecnológica, pois ainda não temos
computadores e internet de banda larga com qualidade em grande parte das escolas
públicas do país", afirma. "Vejo na falta de acesso
adequado um grande limitador para os professores conhecerem e utilizarem as
possibilidades das redes sociais para o processo de ensino e aprendizagem."
Michele prefere não encarar os professores de acordo com juízos
que os consideram "resistentes a inovações tecnológicas". "O
professor é um profissional que precisa reconhecer as possibilidades
e o valor agregado ao processo de ensino e aprendizagem que as redes sociais,
comunidades virtuais, blogs e microblogs propiciam", pondera. "Não
basta ser 'novo', ele precisa vislumbrar o que esse 'novo' traz de benefício
para sua prática pedagógica." Sua experiência aponta
para "uma gama de professores e gestores educacionais utilizando cada
vez mais as redes sociais". Esses já teriam percebido "os
benefícios em relação a estar mais atualizado e, principalmente,
trocando experiências com outros educadores".
Novos usos
Ver "profissionais do conhecimento interagindo em redes sociais" corresponde,
de acordo com Michele, a uma experiência "fascinante". "Em
um projeto que desenvolvemos recentemente, utilizando redes sociais, ouvi de
uma diretora de escola de ensino fundamental que atua há mais de 10
anos na educação pública a expressão 'é como
se eu tivesse nascido novamente'", lembra. "Na ocasião, a
diretora teve oportunidade de vislumbrar os benefícios da interação
em rede. Não é mais um abrir janelas para ver o mundo e, sim,
abrir janelas para interagir com o mundo. Isso nos faz concluir o quanto avançaremos
em educação com o uso adequado das possibilidades das redes sociais."
Portfólio
digital
O entusiasmo de Gladys Gonçalves ilustra essa tomada de consciência.
Professora na rede municipal de São Paulo e diretora na rede estadual,
ela pensa que a internet promoveu uma "revolução". "Podemos
dizer que há o mundo antes dela e o mundo depois dela", avalia. "Ela
revolucionou os costumes e, principalmente, as relações sociais." O
contraste entre "próximo" e "distante", na sua opinião,
deixou de existir. "O que acontece lá se integrou com o que acontece
cá. Hoje, o aluno é mais ligado ao que ocorre no mundo e criou
um universo próprio no seu mundo virtual. No dia a dia das minhas aulas
aprendo muito com eles. Parece que estão mais conectados do que eu,
embora seja uma 'viciada'."
Como a internet representaria "o mundo das possibilidades", Gladys
acredita que "nós professores temos de correr atrás",
mas lamenta que esse comportamento ainda seja o de uma minoria. "Muitos
colegas desconhecem essa realidade, muitos ainda nem usam o e-mail, ou usam
pouco. A internet é a porta do infinito, do ilimitado, uma ferramenta
a mais, o amanhã, mas poucos a descobriram." Natural que, entusiasmada
dessa forma com os recursos à disposição, tenha desenvolvido
com seus alunos projetos ligados a redes sociais. Em 2009, quando assumiu o
cargo de professora-orientadora de Informática Educativa na Emef Guimarães
Rosa, criou um blog da escola (2).
Nele, procurou organizar posts sobre as atividades
da escola, com destaque para os trabalhos dos alunos em sua disciplina. O resultado,
na sua definição, é "uma
espécie de portfólio digital" - objeto de reportagens do
portal da Secretaria Municipal de Educação e do Diário
Oficial do Município, além de ter sido visitado pelo secretário
municipal, que o citou em seu blog. Gladys mantém perfis no Twitter,
que visita diariamente, e no Orkut, onde diz ter "muitos amigos pessoais
e de trabalho, assim como alunos e familiares", e que usa também
para organizar "fotos de momentos da minha vida".
"Sou seguidora de diversos blogs e procuro acompanhar tudo sobre educação
e informática educativa", acrescenta. Paradoxo curioso, mas revelador
de como o assunto é tratado em diversas redes de ensino: na escola em
que Gladys implantou o blog, o acesso ao Orkut - a rede social "mais conhecida
e usada pelos alunos", de acordo com sua avaliação - é bloqueado. "Os
alunos adoram o Orkut e o valorizam demais, como se fosse a coisa mais importante
da internet, e por aí eles se relacionam bastante", afirma. "Na
escola, o único momento de contato dos alunos com a internet é na
sala de informática, uma vez por semana. E ainda trabalhamos com equipamentos
antigos."
A geração de professores integrada desde a adolescência às
redes sociais tem em Monique Buzatto, hoje com 22 anos, uma representante bem
característica. "A primeira rede social que comecei a usar foi
o Orkut, em 2004", lembra. "Estava no ensino médio, tinha
16 ou 17 anos, e uma amiga mandou um convite (ainda tinha isso!) para que eu
fizesse meu perfil. Só usávamos para trocar aquelas mensagens
super-relevantes que adolescentes trocam, sabe? (risos) Quando entrei na faculdade,
em 2006, comecei a participar dos fóruns de discussão de algumas
comunidades, principalmente as sobre literatura."
Monique começou a ter alunos como amigos no Orkut em 2007, quando dava
aulas de inglês para adolescentes em uma escola de idiomas. "O objetivo
era que eles me mandassem as lições de casa por 'scrap', já que
nunca as faziam no livro e eu via que eles estavam sempre online", explica. "A
escola em que eu trabalhava tinha o lab, onde os alunos podiam acessar a internet
antes da aula. Eles ficavam sempre no Orkut, então tive a ideia de aproveitar
algo de que eles gostavam e usar aquilo a meu favor." Curiosamente, o
comportamento dos colegas professores que se tornavam amigos na rede era (e
continua sendo) muito diferente.
"Os colegas professores me adicionavam, mas nunca realmente trocávamos
mensagens", afirma. "Tenho bem mais contato com alunos do que com
colegas de trabalho nas redes sociais. Acredito que as comunidades virtuais
ajudam, sim, a entender melhor os alunos. Dá para saber os assuntos
que eles comentam e seus interesses, como as bandas preferidas, os programas
de TV, os livros que leem, se gostam ou não do Crepúsculo, do
Justin Bieber, essas coisas." Monique recorda, em defesa da presença
nas redes sociais, que "na faculdade os professores reforçavam
a importância de contextualizar qualquer coisa que fôssemos ensinar
e também a valorizar o conhecimento de mundo dos alunos, partindo disso
para chegar onde gostaríamos".
Do cotidiano à sala de aula
Em outras palavras, "preparar uma aula que fosse 'a cara' do aluno".
No primeiro semestre deste ano, Monique teve apenas alunos adultos, com pelo
menos 30 anos, que usam o Orkut, o Facebook e o Twitter. Como o principal objetivo é "que
os alunos falem inglês a maior parte do tempo", ela se comunica
com eles em inglês mesmo fora da aula, graças às redes
sociais. "Comentamos as fotos um do outro no Facebook, fazemos piadinhas
no Twitter", exemplifica. "Às vezes eu posto algum link de
um vídeo em inglês para eles se divertirem. Mas, principalmente,
eu vejo os assuntos de que eles falam e tento levar isso para a sala de aula,
usando como ponto de partida para chegar na matéria que preciso ensinar."
A professora Claudia Cristina Vieira Valério, que leciona nas redes
estadual e municipal de São Paulo desde 1992, considera também
que "a sala de aula está se completando com o espaço virtual". "Hoje
os alunos se relacionam com seus professores de maneira muito mais próxima
através das redes", afirma. "É através delas
que eles conhecem o modo de vida de seu professor e até recebem orientações
de atividades a serem realizadas e entregues. Postam seus trabalhos, expõem
suas opiniões." Na Emef Franklin Augusto de Moura Campos, onde
trabalha desde 2009 como orientadora de Informática Educativa, também
coordenou a criação de um blog (3).
Seu objetivo era "a troca de experiências entre professores, alunos
e outras escolas, visto que a minha unidade ainda não tinha esse meio
de comunicação". Participaram do processo alunos-monitores
que formam a "Equipe Super@ção" e ajudam na alimentação
do espaço virtual com matérias e imagens. "O que hoje me
surpreende é o envolvimento da escola com o blog", comemora Claudia. "Ele
avançou de tal maneira que quase não damos conta de sua alimentação
pela quantidade de materiais que chegam às nossas mãos. Temos
de usar outros canais para apresentação de nossas atividades,
como o Ning e o Educarede."
Além da aplicação profissional, Claudia utiliza redes
sociais "para ter contato com familiares distantes, amigos, colegas de
trabalho, alunos e até mesmo com superiores, a fim de receber informações
e orientações diversas". Diversão também integra
o pacote. "Faço uso das redes de maneira prazerosa e profissional
visando conhecer pessoas e suas atividades, e dividir conhecimento." Na
sua avaliação, os educadores já não enxergam as
redes sociais com mistério ou preconceito. "Muitos já dividem
com seus alunos divertimento, conhecimentos e informações",
diz. "Há, de verdade, uma integração entre educação
e mundo virtual."
Fonte: Revista Educação