Enquanto 54% dos recursos destinados à pesquisa e ao desenvolvimento
no Brasil vêm dos cofres públicos, os dados do MCT (Ministério
da Ciência e Tecnologia), com base nos números de 2008, comprovam
grandes diferenças entre o contexto brasileiro e o das grandes potências
científicas. No Japão, assim como na China, Coréia do
Sul, Alemanha e Estados Unidos, a proporção de investimentos
privados é bem maior do que dos públicos. O governo japonês
e chinês, por exemplo, são responsáveis apenas por 15,6%
e 24,6%, respectivamente, do dinheiro designado à P&D.
Desequilíbrio que impulsiona ainda mais a disparidade entre a produção
científica e a tecnológica no País. É o que aponta
Avílio Franco, superintendente da área de Institutos Tecnológicos
e de Pesquisa da FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos). Ao mesmo tempo
em que é responsável por 2,1% da produção científica
mundial, com a publicação de 30.451 artigos em 2008, o Brasil
representa 0,06% do número de patentes, de acordo com o ranking mundial
do USPTO (United States Patent and Trademark Office). "Para tentar equilibrar
essa balança, no entanto, o governo tem buscado incentivar as indústrias
a investirem mais em inovação e suprir as demandas científicas
do País com mais aporte financeiro", diz ele.
Ações que, na opinião de Adolfo Melfi, diretor do Centro
Brasileiro de Estudos da América Latina da Fundação
Memorial da América Latina, são favoráveis aos pesquisadores.
Segundo ele, o País mantém diversas fontes de financiamentos
para quem tem um projeto de pesquisa e procura oportunidades de financiamento,
mesmo que tais chances estejam concentradas nos órgãos públicos. "Bons
projetos científicos têm grandes chances de angariar recursos",
ressalta Melfi. Franco também é otimista e relata que nunca
se investiu tanto em pesquisa. "Não quer dizer, porém,
que as verbas disponíveis são suficientes para suprir a demanda
brasileira", alerta o superintendente da Finep.
Atualmente, a principal
fonte de apoio à inovação do
Brasil é o FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Cientifico Tecnológico).
O orçamento da iniciativa para 2010 - cerca de R$ 2,7 bilhões
- é 35% maior do que o recurso disponível para o ano passado,
quando foram executados R$ 2 bilhões. Os recursos, de acordo com Franco,
são destinados tanto ao financiamento de projetos de pesquisa, desenvolvimento
e inovação nos setores acadêmico e empresarial. "Cerca
de 95% das verbas que o Ministério de Ciência e Tecnologia investe
no setor são oriundos desse fundo", garante ele.
Há opções em 16 Fundos Setoriais, sendo 14 relativos
a setores específicos, tais como aeronáutico, agronegócio,
Amazônia, aquaviário, biotecnologia, energia, espacial, recursos
hídricos, tecnologia da informação, infraestrutura,
mineral, petróleo e gás natural, saúde e transporte.
Os outros dois fundos são transversais. Um voltado à interação
universidade-empresa (FVA - Fundo Verde-Amarelo) e outro destinado a apoiar
a melhoria da infraestrutura de ICTs (Institutos Científicos e Tecnológicos). "Temas
relacionados prioritariamente às políticas do governo e às áreas
consideradas estratégicas para o desenvolvimento científico
do País", explica Franco.
Os recursos do Ministério de Ciência e Tecnologia são
aplicados em projetos selecionados por meio de chamadas públicas organizadas
tanto pela FINEP como pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico
e Tecnológico). "Enquanto a Finep financia as instituições
de ensino e pesquisa, o CNPq financia o pesquisador", compara Franco.
Segundo ele, existem três formas de contratação: editais,
carta convite e por encomenda. "A primeira modalidade é a mais
habitual", diz ele, que ressalta a importância dos pesquisadores
ficarem atentos às novidades e principalmente aos prazos das chamadas
públicas. "Maneira mais democrática para a distribuição
dos recursos, que também priorizam a descentralização
das verbas com a reserva de 30% aos projetos das regiões Norte, Nordeste
e Centro-Oeste", justifica Franco.
As unidades de pesquisas vinculadas
ao MCT, ainda que não financiem
pesquisas, também podem auxiliar os cientistas brasileiros na produção
de seus projetos. "Além de oferecer o acesso a suas infraestruturas
gratuitamente, alguns centros propiciam ainda a oferta de bolsas de pós-doutorado",
diz Mateus Borba Cardoso, pesquisador do LNLS (Laboratório Nacional
de Luz Síncrotron). No caso do laboratório, segundo ele, os
interessados devem enviar suas propostas de pesquisas e justificar a necessidade
do uso dos equipamentos do LNLS. "Por semestres são liberados
de 65 a 75 turnos", declara ele, que acrescenta a existência de
ajuda de custo de deslocamento, alimentação e hospedagem aos
pesquisadores de fora do Estado de São Paulo. "Qualquer pesquisa
acadêmica é desenvolvida sem nenhum tipo de custo", completa
Cardoso.
Outras opções
Além do LNLS, há outras 18 unidades de pesquisas, cada uma
delas com métodos de trabalho próprios. Os investimentos na
pesquisa não se restringem apenas ao Ministério de Ciência
e Tecnologia. Há muitos outros órgãos públicos
engajados no desenvolvimento científico do País. O Ministério
das Comunicações, por exemplo, mantém o FUNTTEL (Fundo
para o Desenvolvimento Tecnológico das Telecomunicações),
que visa estimular o processo de inovação tecnológica,
além de incentivar a capacitação de recursos humanos
no setor. O Ministério da Saúde, da Cultura e da Pesca e Aquicultura
também investem em P&D.
A atuação do Ministério da Educação,
por meio da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de
Pessoal de Nível Superior), embora não esteja diretamente relacionamento
ao financiamento de pesquisas, beneficia a formação de mestres
e doutores a partir da concessão de bolsas de estudos. Em 2008, foram
oferecidos 41.039 auxílios no Brasil, sendo 23.665 de mestrado, 16.227
de doutorado e 1.147 de pós-doutorado. A agência financiou ainda
a saída de 4.251 estudantes brasileiros para a realização
de doutorado sanduíche, especialização, graduação
sanduíche, mestrado, pós-doutorado e doutorado-pleno em instituições
internacionais.
Enquanto as bolsas no Brasil são distribuídas aos programas
de pós-graduação, os auxílios internacionais
são individuais e concedidos por meio de seleções específicas.
Os prazos de inscrições são variáveis e dependem
da abertura de editais, sempre publicados no Diário Oficial da União
e publicados no site da agência.
A participação dos governos estaduais, segundo Maria José Soares
Mendes Giannini, pró-reitora de pesquisa da Unesp (Universidade Estadual
Paulista Júlio de Mesquita Filho), também tem sido fundamental
para o desenvolvimento científico do País. O envolvimento dos
estados brasileiros em P&D está representando pelas FAPs (Fundações
de Amparo a Pesquisa). A Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa
do Estado de São Paulo), por exemplo, mantém orçamento
anual superior a R$ 400 milhões.
Existem ainda outras 22 agências dessa natureza que apoiam a pesquisa
e financiam a investigação, o intercâmbio e a divulgação
da ciência e da tecnologia produzidas em seus respectivos estados.
Mario Neto Borges, presidente do Confap (Conselho Nacional das Fundações
Estaduais de Amparo à Pesquisa), enfatiza a importância das
fundações para a descentralização dos recursos
na região sul-sudeste. "Além de democratizar o acesso
aos financiamentos, aproxima mais os pesquisadores das realidades de seus
próprios estados", assegura ele.
Ainda que as oportunidades contemplem
todas as áreas do conhecimento,
os editais, de acordo com Borges, são direcionados prioritariamente às
demandas do Sistema de Ciência e Tecnologia dos respectivos estados.
Os prazos de inscrições, assim como os mecanismos de seleção
variam de acordo com cada uma das FAPs. Além dos programas tradicionais,
oferecidos anualmente, algumas fundações investem também
nas parcerias. "Recentemente a Fapesp lançou edital em conjunto
com a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São
Paulo) e outro com a mineradora Vale", exemplifica o presidente da Confap,
que ressalta a importância das iniciativas para angariar mais recursos
para o setor e para envolver mais as empresas na produção tecnológica
e científica do Brasil.
Essas parcerias também ganham cada vez mais espaços dentro
das próprias instituições de Ensino Superior. É o
que diz Maria José. "Ao mesmo tempo em que empresas recorrem às
universidades para encomendar pesquisas específicas, as universidades
também oferecem seus inventos às organizações",
explica. Para ela, essas metodologias têm representando grandes avanços
tanto para o desenvolvimento da pesquisa básica como para a criação
de inovação tecnológica.
O envolvimento das empresas no
desenvolvimento científico não
está restrito a esses acordos bilaterais. Muitas investem na organização
de prêmios e concursos com a oferta de recursos financeiros aos pesquisadores
responsáveis pelos melhores projetos científicos. Como é o
caso da Serasa Experiense, que a dois anos realiza o Programa de Incentivo à Pesquisa
Aplicada. A iniciativa oferece bolsas a estudantes de mestrado e doutorado
que desenvolvam estudos ligados às áreas de Crédito,
Educação Financeira, Finanças, Marketing, Gestão,
Jurídica, Redes Sociais, Sustentabilidade e Tecnologia da Informação. "O
objetivo é expandir os conhecimentos em campos alinhados ás
nossas atividades", garante Tomás Carmona, Gerente de Sustentabilidade
da Serasa Experiense.
Além de todas essas opções, Maria José cita
a existência de diversas fontes de recursos internacionais. "Com
a qualidade da produção científica brasileira, as oportunidades
fora do País são cada vez maiores. Embora haja uma variedade
de alternativas, as chamadas estão concentradas fundamentalmente nos
Estados Unidos e na União Europeia", diz a pró-reitora
de pesquisa da Unesp. Confira no quadro abaixo as linhas de financiamento
mais importantes:
FONTES DE FINANCIAMENTO
Ministério de Ciência e Tecnologia
- CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico)
- Finep (Financiadora de Estudos e Projetos)
Fundos setoriais
- CT- Aeronáutico
- CT- Agronegócio
- CT- Amazônia
- CT- Aquaviário
- CT- Biotecnologia
- CT- Energia
- CT- Espacial
- CT- Recursos Hídricos
- CT- Tecnologia da Informação
- CT- Infraestrutura
- CT- Mineral
- CT- Petróleo e Gás Natural
- CT- Saúde
- CT- Transporte Terrestre
- Verde-Amarelo
- Ações Transversais Audiovisual
Unidades de Pesquisa
- CBPF (Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas)
- CEITEC S.A. (Centro
de Excelência em Tecnologia Eletrônica Avançada)
- CETEM (Centro de Tecnologia Mineral)
- CETENE (Centro de Tecnologias Estratégicas
do Nordeste)
- CTI (Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer)
-
IBICT (Instituto Brasileiro de Informação em Ciência
e Tecnologia)
- IMPA (Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada)
- IDSM (Instituto
de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá)
- INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais)
- INPA (Instituto Nacional
de Pesquisas da Amazônia)
- INT ( Instituto Nacional de Tecnologia)
- INSA (Instituto Nacional do Semi-Árido)
- LNCC ( Laboratório Nacional de Computação Científica)
- LNA (Laboratório Nacional de Astrofísica)
- MAST (Museu de Astronomia e Ciências Afins)
- MPEG (Museu Paraense
Emílio Goeldi
- ON (Observatório Nacional)
- RNP (Rede Nacional de Ensino e Pesquisa)
Ministério da Educação
- Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de
Nível Superior)
FAPs (Fundações de Amparo a Pesquisa)
- FACEPE - Pernambuco
- FAPDF - Distrito Federal
- FAPEAL - Alagoas
- FAPEAM - Amazonas
- FAPEG - Goiás
- FAPEMA - Maranhão
- FAPEMAT - Mato Grosso
- FAPEMIG - Minas Gerais
- FAPEPI - Piauí
- FAPERGS - Rio Grande do Sul
- FAPERJ - Rio de Janeiro
- FAPERN - Rio Grande do Norte
- FAPES - Espírito Santo
- FAPESB - Bahia
- FAPESC - Santa Catarina
- FAPESP - São Paulo
- FAPESPA - Pará
- FAPESQ - Paraíba
- FAPITEC/SE - Sergipe
- FUNCAP - Ceará
- Fundação Araucária- Paraná
- FUNDEC - Mato
Grosso do Sul
- FUNTAC - Acre
Fontes de financiamento internacionais
- AECID (Agência Espanhola para a Cooperação Internaional)
- CIDA (Agência Canadense para o Desenvolvimento Internacional)
- DFID (Departamento de Desenvolvimento Internacional do Reino Unido)
- DGCS
(Direção Geral de Cooperação para o Desenvolvimento)
- GTZ (Agência Alemã de Cooperação Técnica)
- JICA (Agência de Cooperação Internacional do Japão)
- Ministério das Relações Exteriores francês
-
PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento)
- PNUMA (Programa da Nações Unidas para o Meio Ambiente)
-
UE (União Européia)
- USAID (Agência Norte-Americana para o Desenvolvimento Internacional)
- BIRD (Banco Mundial)
- BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento)
- JBIC (Banco de Cooperação
Internacional do Japão)
- KFW (Banco Alemão de Desenvolvimento
Fonte: Universia Brasil