“Dá uma mamadeira queridinha, mamãezinha”, dizia
o Francisco, aos 3 anos de idade, depois que nasceu Sebastião. Eu
ficava comovida. A mamadeira de leite com achocolatado apaziguava alguma
coisa dentro dele que ultrapassava minha capacidade de compreensão. “É meu
peito”, argumentava ele, me deixando sem palavras, enquanto eu amamentava
seu irmão. Me deixava também sem poder de veto, que sempre
exerci sem remorsos. Culpa é para mãe desocupada. Lá em
casa não dá tempo. Então, antes que ele abrisse o berreiro
e convidasse o irmão a se juntar àquela ópera, eu dava
logo uma mamadeira. Ou duas. Ou três.
Então fui convocada a fazer esta reportagem e investigar os erros
que os pais cometem e que atrapalham o paladar e a alimentação
dos seus filhos. A primeira coisa que fiz foi assistir a uma palestra de
Jamie Oliver, o chef inglês da hora – aquele que conseguiu a
proeza de reformular a merenda da rede de ensino britânica. E descobri
que, com as várias “mamadeirinhas queridinhas” que o Francisco
tomava por dia, ele ingeria um “carrinho de mão” de açúcar
por ano. Mesmo sendo zelosa com a alimentação dos pequenos,
ao escrever esta reportagem percebi, constrangida, que minha própria
casa era uma comédia dos erros – será que a sua também é?
Forçar
as boas maneiras
Meus filhos comem bem. Mesmo reclamando, o Francisco nunca deixa sobrar nada
no prato e opera o garfo com destreza de dar gosto. Aprendi com minha mãe
que desperdício, bem como falar de boca cheia, é uma grosseria.
O Sebastião, de 7 meses, que está adentrando no universo
dos comestíveis, se revelou uma pequena capivara, sempre colocando
a mão em tudo. Lá em casa já virou bordão: “Sem
as mãos”, e assim vou ministrando as colheradas sem deixar
que o pequeno encoste na comida. Tudo isso para descobrir, com cara de
eureca, que se sujar faz parte do processo. “A alimentação é uma
experiência sensorial completa e levar comida à boca é decorrência
da manipulação”, diz o pediatra e consultor do Ministério
da Saúde Carlos Eduardo Correa. Ele afirma que, se a experiência
sensorial for prazerosa bem no comecinho da vida, a criança sempre
vai querer experimentar coisas novas. Nem adianta querer passar noções
de etiqueta antes de a criança completar 1 ano. Entre os 2 e os
3 anos de idade, a criança começa a entender o porquê das
regras, tem habilidade para usar a colher. “As boas maneiras devem
ser introduzidas como parte do processo de aprendizagem, com naturalidade”,
diz a psicóloga e doula Daniela Andretto.
Proibir de entrar na cozinha
Na cozinha, meus pequenos só entravam na hora de comer. Sempre os deixei
longe do fogo e das facas. Longe, por tabela, do preparo das comidas. Um erro,
como vim a saber. Pesquisadores em pedagogia da Universidade de Colúmbia,
Nova York, descobriram que preparar comidas saudáveis junto com as crianças
afeta seus hábitos alimentares de maneira positiva. Aproximadamente
600 crianças de 6 a 12 anos que participaram de aulas de culinária
e nutrição começaram a comer mais grãos e vegetais.
O fato de prepararem seus próprios alimentos as tornou mais propensas
a comer bem. “Não deixar a criança entrar na cozinha é um
erro natural. Os pais têm medo que elas se machuquem”, diz a nutricionista
infantil Ana Carolina Elias de Almeida. “Mas é importante envolvê-las
no preparo da comida, inclusive na compra, para que elas possam conhecer a
variedade de alimentos que existe.” Tudo isso é possível
com os devidos cuidados. Os pais devem ficar sempre de olho e nunca deixá-las
sozinhas na cozinha. Mas, para o pediatra Carlos Eduardo, o medo de acidentes
domésticos pode ser um risco em si: “Se a criança não
aprende o que pode machucar, não reconhece os perigos do ambiente e
fica vulnerável”.
Longe das mãos, perto dos olhos
Minha casa também estava cheia de itens proibidos – chocolate,
salgadinhos, refrigerantes – bem longe das mãos, mas suficientemente
perto dos olhos a ponto de atiçar o desejo dos pequenos. Toda casa deve
ter um pouco de guloseimas, mas estudos da Universidade de Penn State, nos
EUA, sugerem algo que a gente, no fundo, já sabe: alimentos proibidos
são mais desejáveis. Crianças foram sentadas em uma mesa
com acesso ilimitado a doces e quitutes. Numa outra mesa, os doces ficaram
dentro de um pote de vidro e as crianças foram informadas de que poderiam
comer somente depois de 10 minutos. Na mesa em que o consumo era livre, comeu-se
três vezes menos do que na mesa em que havia restrições. “A
proibição reforça o desejo por coisas que não fazem
bem. O doce é gostoso e proibido. Isso gera ansiedade na criança”,
diz Ana Carolina. Para solucionar o problema, a nutricionista sugere moderação
por parte dos pais, ao comprar itens que não querem que os filhos consumam,
e muito diálogo: “É um bom momento para trabalhar a questão
dos limites com as crianças, explicar que tem a hora e a quantidade
certa para comer”.
Chantagem emocional
Não deixe que o “não comer” vire uma chantagem. Quando
os pais colocam muito peso na questão, a criança abusa. O ideal é relaxar
um pouco com isso, pois, como as bisavós já diziam: “Criança
com fome come até maçaneta”. Outra questão que contribui
para a neurose da alimentação é a velha negociação.
O famoso “come brócolis que eu te dou um presente”. Pesquisadores
da Penn State ofereceram às crianças figurinhas e horas em frente
a TV em troca de um bom prato de verduras. Constataram que as crianças
até comeram os legumes, mas aumentaram, e muito, sua implicância
com os alimentos verdes. Lá em casa a negociação era sempre
parte do processo, e no fim eu cometia ainda outro erro: enchia os meninos
de beijos e mimos quando eles comiam bem. Segundo o pediatra Carlos Eduardo,
não faz sentido que os pais passem a mensagem “eu gosto de você porque
você come bem”. É preciso, antes de tudo respeitar o desejo
da criança de não comer.
Fazer refeições separados
Não encanar de maneira exagerada com a alimentação mostrou-se
um caminho eficiente. Mas nem por isso os pais devem desistir. A Organização
Mundial de Saúde sugere que um mesmo alimento deve ser oferecido repetidas
vezes em diferentes dias e situações. “A receptividade
da criança não é linear. Às vezes ela está disponível, às
vezes não”, explica Daniela. Por isso, antes de falar em alto
e bom som (como fizemos lá em casa) que a criança não
gosta de couve (guarde a frase para si), vá oferecendo em diferentes
momentos, como quem não quer nada, de preferência durante a refeição
em família. Esse era, por sinal, outro erro que cometemos no nosso doce
lar. Por uma questão de logística, as crianças comem bem
mais cedo do que a gente e raramente temos uma ceia familiar. Mas comer junto é um
ritual. “É uma atividade social. Pode começar desde o sexto
mês, quando o bebê já consegue sentar. A criança
olha os pais comendo e imita. Quer fazer parte do grupo”, diz Carlos.
Nesse momento a criança aprende por imitação, inclusive,
as boas maneiras.
Comer pratos diferentes
Mas não adianta sentar junto e comer diferente: arroz com feijão
para o filho enquanto a mãe sorve um shake de regime. Uma revista de
psicologia norte-americana colheu depoimentos de meninas de 8 anos de idade,
filhas de mães adeptas de regimes intensos. Elas revelaram que suas
noções próprias de uma boa alimentação estavam
relacionadas a saladinhas ralas e milk-shakes. “Pais com distúrbios
alimentares tendem a ter filhos com distúrbios alimentares, tanto para
a obesidade quanto para a anorexia, e esses fatores não se devem só a
predisposição genética”, diz Ana Carolina. Por isso,
embora já tenhamos afirmado que os pais têm direito de primar
por suas beliscadas, a família deve buscar uma alimentação
comum e equilibrada que atenda às necessidades das crianças e
dos adultos. Lá em casa, isso foi mais difícil do que parecia:
maneirar na pizza com refrigerante em frente ao futebol de domingo e encontrar
um horário comum para comermos juntos.
Comilança vendo TV
O mais difícil mesmo foi mudar um hábito do Francisco: sentar
na mesa na cozinha e não na frente da TV para tomar café. Um
adendo: eu não tenho empregada. De manhã preparo o café do
Francisco, enquanto cozinho os legumes da papinha do bebê e faço
o café preto dos adultos. Deixar o Francisco na sala assistindo a Tom & Jerry
atribuía à TV o papel da babá que nunca tive. Mas no fim
da reportagem a mudança já era nítida. Começou
com o leite achocolatado, que virou apenas leite. Em uma semana, o Francisco
se acostumou. Para substituir o desenho animado, inventamos uma atividade lúdica:
picar banana, maçã, amassar o papaia, cobrir de aveia e iogurte,
ou seja, envolver o Francisco no preparo da salada de fruta. E também
o Sebastião, que sentadinho na cadeirão ia amassando a banana
com suas mãozinhas de quem um dia vai abraçar o mundo. Para sentarmos,
por fim, os quatro juntinhos na mesa da cozinha, num delicioso ritual doméstico.
Fonte: Revista Vida Simples